A valsa dos posts

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Via de regra, as redes sociais não refletem a vida real das pessoas e dos casais. Só são mostradas as “cachaças” que são tomadas e os “tombos” ninguém os vê. E, quando o casal intensifica a quantidade de posts, pode saber que a fase não é boa. Mas, na política, esta dinâmica tem me surpreendido, pelo menos, no que se refere aos candidatos à prefeitura de Belo Horizonte. De uma maneira geral, as redes sociais da turma refletem realmente o que eles pensam e quem eles são.

Uma das mais interessante delas é a do presidente da Câmara, Gabriel Azevedo. Ele vem dando uma aula sobre Belo Horizonte, sobre mobilidade urbana e estratégias habitacionais. Nesta semana, mostrou concretamente uma solução para a Avenida Afonso Pensa. Gabriel pensa numa solução híbrida entre VLT e ciclovia até a Professor Moraes e defende a retirada de ônibus que atrapalha a dinâmica do comércio e da locomoção da população. Uns posts anteriores mostram ele se rendendo à JK, fazendo um elogio ao conjunto habitacional IAPI onde, por sinal, foi a última moradia do seu pai. Em uma outra postagem, a reformulação do hotel Othon foi comemorada e, ainda, sugere o uso de um hotel vazio perto da rodoviária como solução habitacional para os belorizontinos.

Enfim, Gabriel tem usado seus perfis para demonstrar com profundidade alguns gargalos de BH. Não sei se o seu discurso consegue penetrar nas camadas mais baixas da população (ele até admite coisa parecida em uma palestra/conversa com pessoas mais humildes) e acho que ele ainda não perdeu a mania de direcionar seus ataques ao atual prefeito, como adversário que é. Eu pensaria em diversificar o destino da sua artilharia, voltando um pouco mais para a turma da direita, que tem votos a serem conquistados por um candidato mais ao centro.

Para falar de três perfis que me chocaram, preciso tomar uma Coca-Cola bem gelada e respirar fundo, mas analiso outra boa antes disso: as redes do senador Carlos Viana. Ele deu uma guinada de 180 graus e tem aliado o seu dom de comunicador com o seu lugar de cidadão preocupado com as questões da cidade, como, por exemplo, no post em defesa dos taxistas. Ficou mais carismático sem terno e, vez ou outra, recorre a recursos escatológicos para chamar atenção da população, como foi o caso da marreta em punhos na frente da ciclovia da Afonso Pena. Em uma visita ao Mercado Central mostrou que, realmente, é frequentador do local, conhecendo os feirantes e recordando suas passagens por lá enquanto repórter e quando era apenas um jovem.

Passemos, então, para a tríade do atraso e do descompasso. A rede social do Bruno Engler é deplorável. É uma ode explícita ao ex-presidente Bolsonaro. Não trás nenhuma reflexão sobre os problemas da cidade. Só falta a Engler dizer que os gases expelidos por Bolsonaro possuem notas de lavanda, um horror. Em um post, ele debocha do cancelamento dos shows de Ivete Sangalo e em um outro publica um vídeo de uma moradora desferindo tiros a um bandido, não contribuindo em nada com o uso legal de porte de arma.

No espectro oposto, a deputada Duda Salabert vai na mesma toada, só que sempre fazendo apologia aos mantras da esquerda, usando a linguagem de um sindicalista, as vezes raivosa, outras se fazendo de vítima. Quando é que vamos ficar livres destes dois extremos em que a narrativa é sempre mais importante do que o bem-estar da população?

Neste time do atraso, mas por outro motivo, podemos acrescentar o recém-lançado candidato Mauro Tramonte. Este tem chances de ir para o segundo turno pelo seu carisma como apresentador de TV, mas não tem conteúdo algum. No seu post mais recente, Tramonte descobre a roda dizendo enquanto caminha na feira de artesanato de BH, que é fundamental ter quem venda cinto de couro e ter gente que compre o cinto de couro. E que a população pode contar com ele. Será que ele não tem um assessor para evitar que ele fale este tipo de baboseira?

Fuad, o atual prefeito de BH, começa a colocar as mangas de fora e passou a postar situações do cotidiano com o político fora do gabinete. Essa estratégia é fundamental para que o seu rosto seja visto e que, com outras ações do seu time de comunicação, torne o prefeito mais conhecido e mostre o desempenho da sua gestão. Com a assinatura de “Fuad tá prefeitando, prefeitando”, é possível ver o prefeito em diversos locais, tratando de diversos assuntos, dando uma sensação de dinamismo.

Tem até pitada de humor, como a do Rei Charles da Inglaterra inaugurando o seu quadro oficial com a imagem do prefeito digitalmente inserida ao lado de crianças. Mas, o prefeito precisa tomar cuidado para evitar o exagero, achei forçado ele elogiar, em um evento, uma batalha de rima de dois rappers. Não soa natural. E ele precisa encarar o quanto antes o que vai ser feito com a ciclovia da Afonso Pena, ficar do jeito que está não é positivo, e no meu ponto de vista, corrói a imagem de bom gestor do prefeito.

Por fim, o perfil do ex-vice governador Paulo Brant. Ele usa e abusa em suas redes sociais a sua facilidade de prosear com o cidadão comum, mas com tanta desenvoltura que dá prazer em assistir. Ainda por cima, coloca uma trilha sonora de fundo sempre de bom gosto, que aproxima ainda mais com o seu público.

Não é por falta de informação e conteúdo que os belorizontinos não possam conhecer os candidatos. Além das redes sociais, todos eles estão cada dia em um veículo de comunicação dando entrevistas. O que pode tirar o brilho destas eleições são as fake news. Não é que ontem peguei um taxi na Savassi e o motorista estava transtornado que o prefeito Fuad estava fantasiado de bailarina no carnaval (como se isto fosse um crime!) e que, por isso, os seus colegas de ponto não votariam nele? Claro que desmenti o ocorrido, mesmo não tendo procuração do prefeito. Reparei que o rádio do motorista, que em outros tempos não saía do noticiário, tinha um “pen drive” plugado tocando músicas de gosto duvidoso. São tempos diferentes e os candidatos e os nossos políticos também precisam se adequar a eles. Pode não ser ballet, mas a valsa dos tempos de hoje precisa ser dançada adequadamente.

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