Coluna do Zeca: A árvore, o ativismo e a PUC-MG

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Mesmo tendo esquecido o nome da professora do meu curso de jornalismo, ainda me lembro, como se fosse hoje, dela nos ensinando como cobrir catástrofes naturais. Segundo ela, a melhor maneira para este tipo de matéria é começar o texto narrando as consequências deixadas pela enchente, deslizamento ou tufões. Desta forma, você retrata a situação deixada pelo fenômeno da natureza. O começo do primeiro exemplo que ela nos deu, não sei porque cargas d’água, me marcou e eu jamais vou esquecer: “árvores arrancadas pela raiz”. E ela continuava descrevendo o resto do cenário para os alunos.

Confesso que, quando vi as imagens das árvores do entorno do Mineirão deitadas no chão, lembrei-me imediatamente desta aula específica. Com a diferença de que elas não foram arrancadas pelas raízes e sim pelas motosserras e foi longe de ser um fenômeno natural, mas catástrofe, dependendo do ponto de vista, pode ter sido. Quando soube que o evento da Stock Car ia chegar a Belo Horizonte, comemorei bastante. Coisa diferente, investimento para a cidade, turistas chegando, novos empregos, a nostalgia de trazer de volta dos anos 70 e 80 os roncos dos carros na Pampulha, tudo isto me entusiasmou.

Mas, a imagem das árvores no chão me fez refletir. Elas são muito fortes. Será mesmo que estamos indo para a direção certa? Não está na hora de não fazermos mais concessão para nada e preservar a natureza a qualquer custo? São questionamentos internos, inquietações naturais de quem quer deixar um mundo melhor para as novas gerações. E, nesta hora, o que a gente faz, além de refletir? Formar opinião junto a sociedade, aos pensadores, aos nossos governantes. E a única coisa que eu via e lia, era a estridência dos ativistas, os seus gritos roucos, os mesmos mantras. São as mesmas pessoas, que viraram profissionais do ativismo pelo ativismo, para se manterem nos cargos do legislativo, por norma. Ou, para se manterem em universidades públicas como uma carreira, pulando de curso em curso, só para aprofundar a carreira de militante de todas as causas e de nenhuma ao mesmo tempo. Não vou dar nome aos bois, ou melhor, às alfaces, porque todo mundo sabe quem são. Veja bem, não estou criticando quem defende a natureza, estou criticando como eles fazem. São irascíveis, não trazem elementos para refletirmos, não nos fazem evoluir os nossos pensamentos. Não sei em relação a vocês, mas comigo, no grito, não. 

Inocente quem pensa que este atrito entre ativistas com o prefeito Fuad pode comprometer a coalizão da esquerda no segundo turno. Papai Lula coloca depois seus filhinhos no colo e conta mais uma história da carochinha. E saem todos felizes e saltitantes pedindo voto contra o fascismo.  

O ativismo no Brasil tomou o lugar da sensatez, do pensamento. A fórmula é uma só, não cabe relativização e construção. E, ele está em todo lugar, cada vez mais calando e sufocando o diálogo. Mas tem também o ativismo em outras formas, como o silencioso. Este está presente no nosso judiciário, onde o bom direito é substituído pela cartilha. Sufocam empresários honestos, colocam todos os pais do mesmo tamanho e, ultimamente, estão cerceando a nossa liberdade de expressão. Na calada, como se fosse defesa da Constituição, começam a calar o povo, o que está longe da nossa Carta Magna.  

Mas cuidado ao fazer o diagnóstico fácil, às vezes, o ativismo vem disfarçado. Engana-se quem fala que o nosso Supremo Tribunal Federal é ativista da esquerda. Ele não é. Lembram das duras falas do Ministro Gilmar Mendes contra o PT e os nomes que ele usou? “Cleptocracia” foi até bonito. Lembram do episódio do emissário “Bessias”, que proibiu a nomeação do então ex-presidente Lula para ministro da presidente Dilma? Do mensalão e da prisão em escala pelo Supremo? Pois é, o ativismo do Supremo é pelo corporativismo, pela pretensão de soberania de ser o poder “moderador”, que só existiu no Brasil Império, da nossa república. São capazes de tudo para se manterem assim, até parecerem ativistas de esquerda.

Existe, também, o ativismo intelectual, tão presente na nossa imprensa. Eu aconselho veementemente o meu estimado leitor: se você ouvir ou ler o termo “extrema-direita”, sem se referir também a “extrema-esquerda”, fuja do vídeo ou do texto. E existe, também, do outro lado, claro, são poucos, mas existem. Estes só faltam falar que os gases expelidos pelo Bolsonaro são inodoros. Difícil encontrar na imprensa atualmente quem não faça ativismo intelectual ao invés de nos fazer refletir, como era no passado. 

Até eu tive o meu passado de ativista. No mesmo curso de jornalismo da PUC-MG, que mencionei no começo desta coluna, vi em todas as paredes das salas de aula que na segunda-feira seguinte, todos os alunos deveriam ir de verde para protestar a favor da natureza. Eu, que queria me enturmar, tratei de comprar uma camisa verde e colocar uma calça mais na tonalidade. No dito dia cheguei bem cedo para recepcionar meus colegas com o devido uniforme de protesto. Para minha frustração, fui o único a ir de verde naquele dia. Encerrei ali mesmo a minha carreira de ativista, mas, ainda assim, até os dias de hoje, não gosto de ver árvores arrancadas pelas raízes.

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