Coluna do Zeca: Lula e Bolsonaro engessam o Brasil

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O Brasil está refém da dicotomia entre Lula e Bolsonaro, não consegue sair mais da pauta que os mantém ora no poder, ora nos holofotes, ora em memes que seriam cômicos, se não fossem trágicos. As cartilhas empunhadas tanto pela esquerda quanto pela direita estão sendo seguidas, cada vez mais a risca. O efeito narcotizante tem deixado a população alienada dos fatos que realmente importam e que são benéficos para o nosso cotidiano. Para usar um termo da moda, a população fica “pilhada” com temas que trazem nada mais do que emoções, como em um jogo de futebol.

Um exemplo simples mostra como estamos presos e estagnados perante uma disputa na qual os únicos vencedores são eles mesmos. Nos últimos 20 anos, o nosso PIB cresceu em média 2,2% e não é à toa que a nossa economia ganhou a alcunha de vôo de galinha, aquele que não tem autonomia para longos e consistentes percursos. Em dois anos, a China cresceu o que o Brasil atingiu neste período todo. Mas, parece que o que importa realmente de uns tempos para cá é quem venceu a discussão pelo WhatsApp com o parente que pensa diferente. 

Ninguém assume a culpa pelo fracasso do crescimento, é sempre um dizendo que vai consertar a tragédia deixada pelo outro. Porém, tanto Lula quanto Bolsonaro estão cada vez mais reféns de suas cartilhas e se descolam, cada vez mais, da realidade para alimentarem seus seguidores e/ou seus egos. 

Afinal de contas, qual seria o motivo para o presidente Lula entrar de sola em um tema tão delicado quanto o conflito na Faixa de Gaza? Aliás, demonstrando um absoluto desconhecimento histórico, para ser minimamente educado com as palavras aqui. Trazer benefício concreto para o Brasil realmente não foi. Este fato não é isolado, faz parte de um contexto de “narrativas” que nutre seu projeto de poder interno. Comparar ação de Israel contra terroristas com uma absurda falta de contexto e de verdade, ele sabe. Mas, quando questionado sobre a situação da Venezuela, que vive em plena “democracia relativa”, como Lula gosta de dizer, o presidente alega não ter conhecimento sobre o que acontece no país. Como o brasileiro tem memória curta, é só puxar as falas de Lula no ano passado para ver que o incidente deste final de semana segue uma mesma estratégia. Criticou o governo norte-americano nos dois principais conflitos de 2023, na guerra entre Rússia e Ucrânia e no próprio conflito entre Israel e Hamas. Não bastasse trazer os Estados Unidos para as duas crises, ele foi ao centro de uma guerra para trocar farpas com o presidente Zelenksy da Ucrânia, dizendo que a culpa do início do conflito era do país invadido pela Rússia. Em menos de um ano, gerou um desconforto com três nações que tem importantes relações com o Brasil. Até agradecer os africanos pelo período de “serviços prestados” durante a escravidão, o fino e educado presidente brasileiro fez. Claro que a fala deste final de semana comparando Israel ao holocausto foi a pior delas e os seus desdobramentos ainda são imprevisíveis. 

Na outra ponta, temos o Bolsonaro convocando os brasileiros, mais especificamente os paulistas, para um ato no próximo domingo em favor do “estado democrático de direito”. Como assim, Bolsonaro? Até hoje você não reconheceu a sua derrota para o Lula. Entregou a comunicação do seu governo para seus filhos, completamente despreparados para a função. Está sendo acusado de participar de um levante para se manter no poder. Jogou o país inteiro contra o STF. Não estou dizendo aqui que não houve e que não há exageros por parte da Suprema Corte, até penso o contrário, acho realmente que o ministro Alexandre de Moraes age como se fosse o dono do país, mas a única forma de mudar esta situação por parte de um presidente é renovar, ao longo dos anos, o quadro de integrantes elegendo outros dentro da Constituição. Deixar o povo bravo após um discurso e depois pedir desculpas aos ministros, com mediação de Michel Temer, só agrava o suposto ativismo judicial que o Brasil parece enfrentar. 

Poderia ter se aproximado do Congresso e da mídia para colocar limites aos atos da Suprema Corte de outra maneira, como insinua, mesmo que timidamente, agora, o senador Rodrigo Pacheco. A sua convocação nada mais é do que um ato egoísta, para mostrar força, já que está com medo de ser preso. Deixou os seus apoiadores nas portas de quartel e saiu correndo para os Estado Unidos sem dar satisfação a eles, pedir para que eles fossem para suas casas comemorar o Natal com suas famílias, virar o ano na perspectiva de mudar a política com atitudes diárias, informação e, sobretudo, paciência de entender que seria preciso esperar. E, agora, você os quer do seu lado para mostrar que tem apoio popular? 

Escrever contra Lula e Bolsonaro não é popular. Podem me acusar de ser “isentão” e de que nesta luta de esquerda contra direita, e vice-versa, é preciso tomar um lado. Pois eu lhes digo que o momento agora é de sair do populismo e buscar um estadista de verdade, aquele que une o país em torno de um ideal maior para toda a população. O centro político do país também não ajuda, só querem compor com o comando do momento para se lambuzarem das benesses dos orçamentos, verbas e cargos e até de desfiles de escolas de samba, com o privilégio de acompanharem o Carnaval levados por aviões da FAB, custeados por nós. Vamos continuar crescendo 2% ao ano? Esta conta não fecha, não conseguiremos pagar em breve o alto custo do funcionalismo público, investir no que precisa e, ao mesmo tempo, gerar poupança. 

Enquanto isso não ocorre, vamos continuar plantando olivas e querendo colher uvas. Vamos continuar colocando a camisa da seleção brasileira, que nem futebol joga mais.

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