Coluna do Zeca: No Brasil, não se comunica mais

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Os mais novos não sabem quem foi Chacrinha, é até difícil de descrever. Além de me acordar dos meus cochilos tradicionais dos sábados à tarde com gritos chamando a atenção de não sei o que, ele ficou imortalizado pela frase sobre comunicação. Ela é tão batida que nem vale a pena reproduzir, joga no Google quem tiver curiosidade, mas ela alertava sobre um trumbico eminente na falta de comunicação.

Olhem o erro de diagnóstico que o governo Lula está cometendo sobre sua queda de popularidade. É claro que os preços dos alimentos são e sempre serão um vilão com destaque em qualquer pesquisa qualitativa. Quem não manda “às favas” quando tem que comprar banana e azeite? Isso porque nem vou polemizar com a picanha que nunca chegou! O buraco é muito mais embaixo e eu cravo que o responsável pelos baixos índices de avaliação é a falta de um profissional de comunicação qualificado e com autonomia para dizer não, como se fosse um agente do serviço secreto americano, que tem uma autoridade constitucional sobre o presidente.

Lula falhou demais nas últimas semanas em um quesito que era um dos seus principais pontos fortes nos dois primeiros mandatos: está comunicando mal e falando muita bobagem a todo tempo. É insinuação de holocausto, democracia na Venezuela, dividendos da Petrobrás, é sucessão na Vale… Ele pode até pensar e articular sobre, mas erra feio ao se comunicar de maneira amadora e arrogante. O Lula de hoje é um tipo de 007, só que a sua licença é para falar besteiras.

Estamos vivendo o período pleno da não comunicação, não somente no governo federal. Não sou sociólogo para fazer uma análise profunda sobre o caso, mas não precisa ser catedrático para elencar alguns pontos cruciais que nos levaram até aqui. Tudo começou com o esquema do mensalão. Ali, as agências de publicidade foram dragadas para o centro de corrupção, viraram uma peça fundamental para o pagamento de propinas. A partir dali, a comunicação profissional nunca mais foi a mesma. O controle exagerado para se contratar qualquer serviço de comunicação ficou absurdo e, por falta de entendimento dos agentes de fiscalização, tudo virou farinha do mesmo saco. Para não se comprometerem, a solução para se comunicar virou amadora e perdeu voz nas instituições.

Depois, vieram as redes sociais e o bom plano de comunicação e marketing deu lugar ao engajamento. Não interessa a qualidade da mensagem e, sim, quantas curtidas e compartilhamentos se atingiu. Eu tenho uma forte desconfiança de que isto fortaleceu a polarização no debate e na política. O bom senso, o meio do caminho, o centro (não se confunda com centrão, são duas coisas bem diferentes) estão deixando de existir. É bem verdade, também, que o excesso na distorção dos fatos, o abuso das narrativas pelos políticos, usando a comunicação profissional como ferramenta de propagação da mensagem, tudo isto contribuiu para o seu descrédito.

Bolsonaro foi o próximo nível para avacalhar com a comunicação. Sua campanha de “Globo lixo” e o extermínio das campanhas publicitárias institucionais praticamente sepultaram a comunicação profissional no governo federal. Sua equipe de comunicação era formada por militares, militantes e filhos. Não tinha como dar certo mesmo. Mas, eu tenho certeza de que alguns leitores vão me xingar ao ler este parágrafo. Tento explicar e peço um pouco de paciência.

Eu entendo que a mídia ativista pegou pesado demais contra ele e poucas pessoas realmente conseguiriam suportar os ataques sofridos. Mas, de todas as estratégias possíveis, ele adotou a mais beligerante, sem trocadilho com a sua patente. E, claro, gerou engajamento de seus seguidores, pejorativamente denominados por seus opositores de “gado”. A campanha do ex-presidente foi tão pesada que é difícil explicar aos amigos de que não se trata de dar “dinheiro para a Globo” e sim fazer comunicação profissional usando os veículos de massa. Talvez demore anos e, até, décadas para que a população enxergue a importância desta comunicação. Mas, certamente, o Bolsonaro estaria reeleito se tivesse utilizado a comunicação profissional desde o primeiro dia de governo. Não cometeria tantas asneiras como cometeu.

Trazendo a prosa para o nosso quintal, é fácil entender como a comunicação é importante para a nossa política e instituições. Nas pesquisas espontâneas para o pleito de prefeito de BH, os comunicadores Carlos Viana, Mauro Tramonte e Eduardo Costa aparecem nas cabeças. Kalil também aparece com destaque, apesar de não ser um comunicador profissional, é um nato. Não estou dizendo que estas pessoas são melhores para a cidade, estou dizendo que eles levam com mais credibilidade a sua mensagem para a população.

É sempre bom lembrar que Zema e Pacheco não precisaram comunicar em suas eleições, eles foram instrumentos que os eleitores usaram para dizer não ao PT e ao PSDB. E, por não saberem comunicar que “Minas Gerais está nos trilhos”, graças a suspensão do pagamento da dívida bilionária com a União, os adversários de Zema o conduziram ao segundo mandato.

Gabriel Azevedo é um bom comunicador. Nicolas, excelente. Rogério Correia, como já disse antes, não conta. Fuad precisa reforçar sua equipe de comunicação. Duda, comunicar fora da sua bolha. Cleitinho é o velho guerreiro do primeiro parágrafo: precisa fazer barulho para levar sua mensagem, mas faz bem o que se presta a fazer. Engler reverbera a mensagem de outro, isto não é consistente, mas eventualmente pode emplacar.

Em homenagem aos comunicadores amadores que imperam neste país, eu proponho criar o “Prêmio Nacional de Comunicação Ricardo Lewandowski”. Afinal de contas, quem vai superá-lo com sua fala que classifica a operação de resgate aos fugitivos de Mossoró como exitosa. Detalhe importante: os mesmos continuam foragidos. Trumbico maior que este, ainda há de nascer. Alô aí Ministro, atenção!

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