Coluna do Zeca: Quando os protestos são seletivos

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A gente já pode dizer que a personificação do movimento contra o evento de corrida da Stock Car em BH é feita através da reitora da UFMG, Sandra Goulart. A gente também pode afirmar que esta batalha já ganhou contorno político, porque a reitora já convidou e conversou em seu gabinete com dois candidatos de esquerda que concorrem contra Fuad, atual prefeito da cidade, a eleição no final do ano. Academicamente, provo a minha tese. Basta somente verificar a antítese: ela convidou outros candidatos do espectro político oposto? Claro que não. Quod erat demonstrandum ou, como diria Clênisson, o meu professor de matemática do Marista, CQD, ou seja, “conforme queríamos demonstrar”.

É pelo bem da cidade ou pelo bem da causa? Vamos analisar. Ela questiona que o barulho da corrida vai impactar diretamente no hospital veterinário e na fauna de todo o campus. Parece-me muito seletiva esta reclamação. E os eventos no entorno do Mineirão? E os próprios jogos de futebol que, além do barulho, também mudam completamente a rotina da região? Fomos atrás das informações corretas mas, antes de revelar quantos eventos tiveram ali naquele espaço do ano passado para cá, selecionei um especificamente que também poderia ser passivo de reclamação.

No carnaval deste ano, a Pampulha, como um todo, recebeu vários eventos, inclusive, nos arredores do Mineirão. Ali perto, por exemplo, o cantor Michel Teló e o seu trio elétrico, arrastou dezenas de milhares de pessoas, que não estavam fazendo greve de silêncio. O local é bem próximo do hospital veterinário e a farra durou horas. Imagino que dali não saiu menos de 100 decibéis. Vocês ouviram alguma reclamação por parte da reitora da UFMG? Ou será que por ser uma festa democrática o barulho vindo de lá é do bem?

Vamos aos números. No ano passado, tivemos mais de trinta eventos na região. Dá uma média superior a dois eventos por mês. A maioria com capacidade acima de 25 mil pessoas, tendo alguns eventos na casa dos 60 mil. Foram festivais de rock, pagode, sertanejo e coisas que eu nem consigo classificar, de tão diverso. É questão de gosto mas, para mim, não há barulho mais insuportável do que um show do Gustavo Lima. Por fim, estão falando em um aparato moderno capaz de bloquear a passagem de ruídos na direção da Universidade, que será um dos legados para a cidade. Vamos entender isso melhor, mas não esperemos agradecimentos por isto.

A questão das árvores, eu já escrevi recentemente em outra coluna sobre o assunto. Realmente, a imagem da árvore no chão com aquela impressão de sangramento é muito impactante. Foram, no total, 63 árvores suprimidas no entorno do Mineirão. Do ponto de vista da frieza dos números, não fica nem perto das milhares de árvores tiradas para construir a Arena MRV. Também fica longe do total de árvores cortadas para a reforma do próprio Mineirão em 2013/2014. Não me lembro de manifestações de ambientalistas nem de políticos nas duas ocasiões. Ouvi dizer que houve falhas ou no planejamento, ou na comunicação para fazer a supressão destas 63 árvores. Mas, com a má vontade explícita contra o evento, nada seria suficiente para frear estes protestos seletivos e sem coerência.

Agora, se a reitora tivesse dito que o alvo das críticas fosse o organizador local do evento, o ex-presidente do Atlético, Sérgio Sette Câmara, eu até entenderia. Não é uma figura das mais simpáticas. Eu mesmo já tive dois entreveros com ele no passado. Boicotou uma edição do Troféu Telê Santana ao não levar pela primeira vez os atletas do Galo à premiação e, depois, se desentendeu com o representante do clube na bancada democrática por conta de uma opinião contrária. Por vias das dúvidas, eu já deixei pronto o meu cartaz de manifestação contra o ex-dirigente, só falta a reitora me convocar.

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